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O mundo é como um malmequer, O vemos, mas não pensamos nele Porque pensar é não compreender... O mundo não se fez para pensarmos nele Mas para olharmos pra ele e estarmos de acordo


























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terence.veras@gmail.com pedromahfuz@gmail.com




























Idiossincrasia
por Térence Veras e Pedro M. Mahfuz
24.6.08

BAILANDO COM AS MARIAS!



Show de lançamento do CD Bailadêra em que o grupo Maria vai com as outras comemora seus dez anos de estrada musical.
Regina Celis,
Débora Dreyer,
Vanessa Longoni e
Cláudia Braga
dão o tom certo de todas as aventuras musicais em um universo cheio de sensibilidade e surpresas.
Acompanhando os vocais das "Marias" um grupo de instrumentistas de intensa atuação na nossa música:
Cris Bertolucci ___Bateria
Carlos D'Elia_____Baixo
Alexandre Vianna__Piano e Teclados
Angelo Primon____Violão e Guitarra
Com participações especialíssimas dos músicos:
Luciana Prass____Violão
Matheus Kléber___Acordeom
Edu Pacheco_____Percussão
Térence Veras____Violão e Guitarra
Será, sem dúvida,uma grande festa! Aguardamos todos!!!
Dias 27, 28 (21h) e 29 de Junho (20h) no Teatro Renascença.
Serviço:

o quê - lançamento do Cd Bailadêra, do grupo Maria Vai Com as Outras - 10 anos (Financiamento do Fumproarte)

quando - 27, 28 e 29 de junho, 21h sexta e sábado, 20h no domingo

onde - teatro Renascença (Centro Municipal de Cultura - Av. Érico Veríssimo, 307)

quanto - R$20,00 inteira ou 50% de desconto (R$10,00) com a entrega de 1 kg de alimento ou 1 peça de roupa - projeto solidário; 50% de desconto também para sócios do Clube do AssinanteZH

Térence Veras

4:53 PM Comments:

11.6.08

MÚSICA POPULAR DURANTE A ERA VARGAS

E está entrando no ar mais um programete auditivo aqui do Idiossincrasia. O tema que abordo nessa edição é música e política. Mais especificamente, a feita na chamada era de ouro, que abrange os anos 30,40 e 50. Vou mostrar como a música popular pode e deve ser usada para conhecer melhor o país. Nesse caso, o Brasil durante a época da ditadura Vargas.
Abaixo segue a lista de músicas que usei e seus respectivos autores - e quando consegui, intérprete . É bom ressaltar que a quantidade de músicas com teor político dessa época é enorme. Pincelei apenas algumas que serviram para ilustrar as histórias desse tempo.

Clique aqui e ouça.

Lista de Músicas:

GÊGÊ
Autor: Lamartine Babo
Intérprete: Almirante, com o Bando de Tangaras.
Gênero: Marchinha

BICO DE LACRE NÃO VEM MAIS
Autor: Osvaldo Santiago
Intérprete: Alvinho
Gênero: Marcha

GLÓRIAS DO BRASIL
Autor: Zé Pretinho e Antônio dos Santos
Intérprete: Nano Roland

HOMENAGEM A GETÚLIO, O GRANDE PRESIDENTE
Interprete: Escola de samba da Mangueira
Gênero: Samba-enredo

19 DE ABRIL
Autor:Benedito Lacerda
Intérprete: Dalva de Oliveira

O NEGÓCIO É CASAR
Autor: Ataulfo Alves e Felisberto Martins

O BONDE SÃO JANUÁRIO
Autor:Wilson Batista e Ataulfo Alves

NÃO QUER QUE EU PARE EU VOU ANDANDO
Autor: Silvio Caldas
Intérprete: Silvio Caldas

NÃO TEM TRADUÇÃO
Autor: Noel Rosa
Interprete: Araci de Almeida

O TREM ATRASOU
Autor: Paquito, E. Silva e A. Vilarinho

Autor: Ari Monteiro e Raimundo Olavo
Intérprete: Linda Batista
Gênero: Marcha

Vossa Excelência, dá licença,
Quero um aparte para falar,
Quero falar num artigo:
Cadê o trigo, cadê o trigo?
Levo a vida nessa marmelada.
Passa o tempo e não resolvem nada.
Peço a palavra, pela ordem,
Na voz do meu coração,
O povo não tem casa pra morar,
Não tem transporte, não tem carne, não tem feijão.
Até das frutas que existiam por aqui,
Só resta agora o abacaxi".

AI, GÊ GÊ
Autor: João de Barro e José Maria de Abreu

RETRATO DO VELHO
Autor: Haroldo Lobo e Marino Pinto
Intérprete: Francisco Alves

DR. GETÚLIO
Autor: Chico Buarque e Edu Lobo
Intérprete: Simone

Térence Veras

5:50 PM Comments:

9.4.08

Remexendo no Baú

Esse curta metragem foi produzido durante meu curso de jornalismo na PUCRS. Sim, tínhamos algumas cadeiras de cinema. E numa delas acabei dirigindo um filme. É óbvio que trata-se de um trabalho feito por quem não tinha nenhuma experiência na sétima arte.
Sempre fui fervoroso amante do cinema, mas daí a dirigir um há um abismo. Mesmo assim, publico aí o Natureza Morta a título de curiosidade.

O roteiro tem como argumento um conto do nosso Daniel Galera - que está no livro Dentes Guardados.

A montagem é do meu amigo, cineasta e colega de blog, Pedro Mahfuz.



Térence Veras

2:10 PM Comments:



MICRODRAMA SAÚDE

Duas ex-colegas de faculdade se reencontram casualmente depois de alguns meses:

- E ai, guria, como tu tá?!

- Tudo bem, tudo ótimo.

- Tá diferente.

- Tou?

- Parece... mais magra

- É, emagreci mesmo

- Dieta?

- Mais ou menos. Virei vegetariana

- Nossa, que bacana. Só na carne branca, então?!

- Não, não, VE GE TA RI A NA. Não como nada que tenha rosto, ou origem animal.

- Ah, entendi... claro. Mas nada nada mesmo? Tipo...manteiga?

- Não, só margarina.

- Leite, ovo...?

- Bom, na verdade agora sou ovolactovegetariana.

Térence Veras

12:26 PM Comments:

4.4.08

ESTRÉIA NOVO FORMATO NO IDIOSSINCRASIA

Tendo como mote a calorosa apresentação da Banda Mantiqueira que rolou lá na Reitoria da UFGRS - dentro do sempre louvável Projeto Unimúsica-, resolvi dar uma 'inovada' cá no Idiossincraisa e tornar o blog um pouco mais multimídia. Eis que apresento o primeiro podcasting do nosso site, tendo como tema justamente a Mantiqueira

Boa audição a todos!

Clique aqui e ouça.








Térence Veras - produção e apresentação do programa e fotos

7:24 PM Comments:

27.3.08

MICRODRAMA LISÉRGICO

- Escolhe!
- Qualquer um?
- É. Qualquer um.
- São todos iguais?
- Não. Cada um é um diferente. Cada um uma experiência.
- E como escolher?
- Vai na intuição
- Me dá uma dica
- Tu precisas de mais devassidão na tua inquietude...

Térence Veras

11:49 PM Comments:

23.1.08

UMA NORUEGA TROPICAL

Quem ainda não teve a oportunidade de assistir A Mulher de Oslo, por favor o faça com urgência. Já rodando pelo estado há mais de um ano, o show, que tem como protagonista a cantora Vanessa Longoni, é, pelo menos, audacioso e original.
O mote do espetáculo vem de um conto de Eduardo Galeano (escritor uruguaio que merece ser lido) de nome A paixão de dizer, que fala de uma mulher em Oslo que canta e conta histórias de sua vida. E é nesse ponto que a pequenina Vanessa vira uma gigante. Tanto pelo sua grande voz, como pela sua hipnótica presença de palco.
Tive a sorte de estrear na platéia da Mulher de Oslo em um teatro que proporciona uma intimidade além do comum entre artista e público: o Teatro de Arena - que, como o próprio nome diz, distribui as pessoas ao redor do palco. Aí é só alegria!

Do início ao fim, A Mulher de Oslo é poesia. A começar pelo cenário, que lembra uma praça durante o outono, com banco de madeira e folhas de plátano secas tapando o chão. Essas folhas secas fazem parte, aliás, do contexto musical da coisa. Porque os músicos caminham pelo palco, pisando nas folhas, e transformando aquele ruído em nuance de som.

De início, a banda entra sozinha, ainda sem sua maestrina. E o primeiro tema não poderia ser mais propício: Dona tá Reclamando – de Dominguinhos Minguinho -, em que os músicos cantam em uníssono o refrão que dá nome à música. E em meio ao clima meio navio negreiro que começa a se instaurar, salta Vanessa, invadindo e tomando de assalto o palco com uma energia sul real. A partir daí, a voz de Vanessa desliza por canções que vão de Elomar e André Abujanra até Alanis Morrisete e Goran Bregovic, sem deixar de fora coisas aqui dos pampas e do prata – Nico Nicolaiewski, Arthur de Faria e Leo Maslíah.

O timbre de Vanessa é privilegiadíssimo e versátil: Potente, suave, agressivo, sensual... Sua fluência em cantar em inglês, espanhol é a mesma que com o português – ela faz isso parecer fácil.
Mas música e cenário são apenas uma parte da Mulher de Oslo. Cada música é intercalada por um texto muito bem costurado e perfeitamente interpretado por Vanessa. Ou por uma instrumentação igualmente redonda.

Enfim, não estamos diante de um simples show musical. Ali temos uma história sendo contada. Com início, meio e fim. Com ritmos, timbres e vozes de todo mundo – dá pra ouvir fados, unza-unza-music, tangos, baladas...Com piano, acordeon, sitar com distorção, viola com delay, violão, baixos, tambores... Um deleite só. Como todos os shows deveriam ser.

A Mulher de Oslo tem - além da já bem citada Vanessa Longoni cantando:Arthur de Faria (piano e acordeon), Angelo Primon (sitar,violas e violões), Clóvis Boca Freire (baixo acústico e elétrico) e Diego Silveira (percussões - baldes, panelas & o que pintar).



Térence Veras

*Foto: Camila Mazzini

4:06 PM Comments:

17.1.08

MICRODRAMA DE BOÊMIO I

Do lado de fora de um bar, dois rapazolas abordam duas moçoilas que conversavam concentradamente:

- E então gurias, que que vocês tão confabulando aí?

- Confabulando????


Térence Veras

5:10 PM Comments:

26.8.07

REFLETINDO EM GABRIEL GARCIA MARQUES

Ando lendo “Memoria de mis putas tristes” – claro, em espanhol-, do mestre Gabriel Garcia Marques. A obra é uma demonstração de maturidade e excelência no manejo das palavras; O livro é narrado todo em primeira pessoa e começa com o personagem principal do romance querendo dar a si próprio um presente muito especial naquele seu aniversário de 90 anos: uma louca noite de amor com uma menina virgem. Bom, esse causo se desenrola até o final das 110 páginas, e não tem quase sacanagem, ao contrário do que se possa pensar. No livro Gabriel tece diversos mini ensaios sobre a existência humana, sobre amor, sobre sexo e sobre a velhice. Foi numa dessas passagens sobre a terceira idade que me veio à cabeça uma foto inspiradíssima tirada pelo meu amigo publicitário André Carrasco. O modelo é este que vos escreve, mas o bom mesmo da foto é a atmosfera capturada pelo André.
Então, segue uma tradução do trecho e a foto. Acho que no momento do clique eu deveria estar pensando mais ou menos nisso:

(...) Desde então comecei a medir a vida não por anos e sim por décadas. A dos cinqüenta havia sido decisiva, porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais jovem do que eu. A dos sessenta foi a mais intensa, pela suspeita de que já não me sobrava tempo para equivocar-me. A dos setenta foi temerosa por uma certa possibilidade de que pudesse ser a última. Ainda que, quando acordei vivo na primeira manhã dos meus noventa anos, na cama feliz de Delgadina, me ocorreu a idéia complacente de que a vida não fora algo que passa como o rio inquieto de Heráclito, e sim uma ocasião única de virarmos de lado na grelha e continuar assando por mais noventa anos. (..)

Gabriel Garcia Marques. Tradução: Térence Veras


7:44 PM Comments:

20.8.07

NOSSA SALVAÇÃO: O IMPROVISO

Sim, a nossa salvação é realmente o improviso. Porque é dele que surgem idéias novas, que podem apontar pra coisas ainda não feitas nesse universo musical . E essa pulga me mordeu a orelha nessa sexta que passou, logo após um delicioso show do Arthur de Faria & Seu Conjunto lá na Livraria Cultura.

Mas, como diria Jack, vamos por partes.

Um trio em forma de contos de fada

Tudo começou um dia antes, na quinta, quando fui assistir ao primeiro show do trio Rásimo no bar Ocidente. Só de saber de antemão a formação e a proposta do grupo já me lambi os beiços. O projeto é encabeçado pelo baterista e percursionista Diego Silveira (nova promessa da composição moderna brasileira, que também toca no Conjunto do Arthur e é um dos fundadores das bandas Faskner e Relógios de Frederico), atacando tachos de cobre e alumínio, tambor africano, tambor paraense, djembe, pandeiro, lixeira e outros utensílios de plástico. No interesse de pesquisar timbres novos e achar sons diferentes, Diego juntou suas idéias e baquetas com seu colega de Relógios de Frederico, o soprista Rodrigo Siervo - sax barítono, sax de bambu, pífanos e ocarinas (ouçam o Siervo também na Camerata Brasileira) – e o meeeeeeestre e cada-vez-mais-multi-instrumentista Ângelo Primon (hors concours das cordas em Portinho. Confiram o disco dele Mosaico) – viola caipira, sitar, viola de cocho e berimbau – pra unicamente improvisar.

É inexplicável definir o que acontece numa apresentação dessas. Até porque nem mesmo os próprios músicos sabem e prevêem. O que se pode dizer é que há uma interação muito forte entre instrumentistas e instrumentos a favor de um único movimento: fazer música. Só essa atitude já seria louvável. Porém, o que deu pra perceber no trio Rásimo foi um frescor musical e uma vontade de tocar que há muito eu não via por aí.

O pouquíssimo público presente no Ocidente (explicado pela concorrência do circo da china e de um show da Ultramen no mesmo dia) propiciou um clima ainda mais intimista. Pra quem pensa que três caras improvisando sabe-se lá por quanto tempo em seus instrumentos inusitados é chato, recomendo dar uma ouvida com cuidado no Rásimo. A musicalidade que se faz sentir é de causar verdadeira comoção.

Já de início, salta uma linha descoladíssima de sax barítono e nada mais. Só pra criar um clima. A partir daí, um mar de idéias musicais começa a tomar conta do ambiente, enquanto Ângelo e Diego vão indo atrás do motivo que o Siervo lançou. Os timbres que resultam daquela simbiose de sons aparentemente diferentes aos ouvintes mais desatentos são quase palpáveis. A certa altura juro que tentei agarrar com as duas mãos um solo de sitar do Ângelo, mas logo em seguida me dei conta de que era fisicamente impossível.

Em meio aos climas que vão surgindo – cada um melhor que o outro -, os instrumentos também vão sendo alternados, mas sem perder em nenhum momento a uniformidade do som que ali está estabelecido.

Outro fator que fica claro durante esse desfile de bom gosto musical é a brasilidade dos músicos da Rásimo. Não sei se ouvi bem, mas até baião eu saquei num dos momentos da apresentação e tenho certeza de que rolou uma citação de “Cidade Maravilhosa” em um dos solos de berimbau com slide do Primon! As melodias tiradas pelo Siervo dos seus brinquedinhos de assoprar são de se refestelar e, pasmem, as que Diego concebe nas suas bacias de cobre também são deslumbrantes – poucos percursionistas conseguem usar suas armas rítmicas melodicamente tão bem.

Creio que o que aconteceu naquela noite no Ocidente foi mais do que um espetáculo musical. Foi uma bela e emocionante fábula, com início meio e fim, conduzida por três instrumentistas que têm muita história nova pra nos contar. Confiram aqui uma amostra.
Música pra ouvir sentado

Aí veio sexta. E em troca de um quilo de alimento fui ver o novo repertório instrumental do Arthur de Faria & Seu Conjunto na livraria Cultura. Crianças e idosos saiam da sala. O Arthur tá compondo cada vez melhor e criando umas peças beeeem dodóis. O entrosamento da banda é visível. Mas o mais bacana é que o Art faz uma música inegavelmente de vanguarda, bem-humorada e sem ser chato, além de misturar ritmos latinos (tem bolero, habanera, tango, milonga etc) com um viés jazzístico-mas-nem-tanto que geram umas nuances agradabilíssimas aos ouvidos.

A formação do Seu Conjunto (Baixo, guitarra, bateria, piano, sax alto, fagote e trombone) torna a exposição dos temais ainda mais interessante, em função da combinação dos timbres e da execução dos músicos - todos cobras que eu nem vou citar, porque senão vira babação de ovo.
O show é completamente instrumental e com muito espaço pra improviso de todo mundo, inclusive do dono da banda – que assumidamente não é um improvisador! E os guris estavam endiabrados naquele fim de tarde. Até porque os temas dão margem a isso.

Os pontos mais altos foram Osvaldo y Astor en Vênus - tango doente que o Art fez em homenagem a dois papas do ritmo porteño Osvaldo Pugliese e Astor Piazzola -, Fables of Faubus – do grandessíssimo e, ainda bem, louco de atar Charles Mingus-, 25 de Março – um rápido free jazz valseado que é uma verdadeira loucura – e o melhor do show: Prenda Minha. Só que na versão do Artur. O clássico do cancioneiro gaúcho ganhou um arranjo polifônico que fez dois casais (já de cabelos bem branquinhos) que estavam sentados ao meu lado saírem correndo da pequena sala de audição. Uma maravilha! Mais no site oficial e no fotolog.


TRIO RÁSIMO * Foto: André Carrasco

Térence


4:06 PM Comments:

13.8.07

Cuando perdemos el control

Sentados en una escalera dos hombres conversan. El más alto, sentado a la derecha, tiene manos grandes, que insisten en dibujar el aire mientras habla. Tiene el rostro extraño, los huesos le estiran la cara, sus ojos quedan en dos hoyos profundos del cráneo, y tiene piernas de langosta. El hombre de su izquierda es más bajo, aunque sea más alto que la mayoría de las personas, tiene pelo rubio largo y es tan delgado como el otro. Este no habla mucho, cuando dice alguna cosa, es solamente una pregunta o una divagación. El que más habla es el de piernas de langosta. Y la conversación es más o menos así:

- ¿Estás preocupado? ¿Pero con qué? Ya te dije, no hay ninguna preocupación y esta es la verdad.
- ¿Perdón?
- Mira, si te quedas preocupado, si te descontrolas con las cosas que suceden, pierdes el control, y así la tranquilidad.
- Dime una cosa que no sé.
- Estoy diciéndola, pero no estás escuchándola. No hay porque ponerse mal, no hay por que. Todas las cosas tienen su motivo.
- Sí, sí. Pero no creo en el destino.
- ¿En qué tipo de destino no crees?
- ¿Perdón?
- ¿Qué consideras como siendo el destino? ¿Un plan dibujado por Dios?
- Creo que sí.
- No creo en ese destino, tampoco. Creo que las cosas son como son, y en este es el destino en que yo creo. Pero puedo hacer las cosas a mi gusto. Y si quiero y no puedo, bueno, no puedo hacer nada. No voy a preocuparme con cosas de este tipo.
- A mí me gustaría tener el control de ciertas cosas.
- Cuando entiendas que no hay control, vas a tenerlo.
- ¿Lo tienes?
- Casi siempre.

El hombre mas alto, de piernas de langosta, sentado a la derecha, retira de sus pantalones un paquete de cigarro, le da uno al hombre a su lado y coge uno para sí. Los dos hombres se quedan en silencio por un rato, mientras pierden el control.

Pedro
(escrito originalmente para aula de espanhol)


10:32 PM Comments:

16.7.07



-Talvez fosse melhor se não me amasse.
- Mas te amo.
- Como sabe?
-Não sei, apenas sinto, percebo.
-Como pode ter certeza de que o que senti é amor, e não outra coisa?
-Te amo porque é diferente de todas as outras mulheres que conheci. Te amo como nunca amei nada, e como nunca vou amar. Te amo mais que a mim mesmo. Daria minha vida por ti, deixaria que me arrancassem a pele, os olhos, me atiraria em um mar de piranhas, em ácido sulfúrico. Te amo. Quero cada pedaço do teu corpo, cada dobra. Só preciso te olhar nos olhos pra ser feliz.
Ela move a cabeça, inquieta.
-Isso tudo é verdade? Ah, Raul, se tivesse certeza que teu amor é verdadeiro, que posso acreditar em ti, que tudo isso é verdade, que não está enganando a ti mesmo e consequentemente enganando a mim...Tu me amas mesmo?
-Sim. Meu amor por ti é maior que qualquer outra coisa que poderia amar (e não amei) na minha vida. Te amaria mesmo que me desprezasse, mesmo que não quisesse mais olhar na minha cara. Te amaria em silêncio, às escondidas. Esperaria que saísse do trabalho somente pra te ver, mesmo que de longe. Como é possível que duvide do meu amor?
-Como tu queres que eu não duvide? Que prova concreta eu tenho que me ama? Ok, tu diz que me ama. Mas são palavras, e as palavras são convenções. EU sei que eu te amo. Mas como posso ter certeza que TU me ama também?
O homem olha a mulher nos olhos e segura suas mãos.
-Te amo. Tá me ouvindo? TE A MO.
-Ahhh, “te amo”, “te amo”...é muito fácil dizer “te amo”.
-O que tu queres que eu faça? Que me mate pra te provar?
-Não seja melodramático. Não gosto nada desse tom. Já está irritado. Se me amasse de verdade não ficaria irritado.
-Não to nada. Só deixa eu perguntar uma coisa: O que comprovaria o meu amor?
-Não sou eu que tenho que dizer. As coisas não são tão simples assim. A resposta tem que estar dentro de ti. – Ela faz uma pausa, e olhando Raul, suspira – Seria tão bom se eu acreditasse.
-Mas tu tens que acreditar em mim!
-Por quê? O que me garante que tu não estás me enganando? Que tu mesmo, tão convencido desse amor, não estás enganando a si mesmo? Pode ser que esteja enganado...não acho que seja por mal... Sei que quando diz que me ama é porque acredita. Mas e se estiver enganado? Se o que sente por mim não for amor, se for afeto ou algo parecido? Como sabe que é amor de verdade?
-Tu me machucas desse jeito...
-Desculpe...
-A única coisa que sei é que te amo e tu dúvida desta maneira.
-Talvez fosse melhor se não me amasse.


Pedro
(Tradução Livre de um conto de Quim Monzó)

9:54 PM Comments:

29.6.07

UM CASO CHEIO DE DISSONÂNCIAS

No dia 3 de fevereiro de 1984, aos 36 anos de idade, o cantor e compositor porto-alegrense Carlinhos Hartlieb foi encontrado morto dentro de sua própria casa, na Praia do Rosa, em Santa Catarina, localidade até então habitada por pescadores e pouco conhecida por pessoas que não fossem da região. Nu e tendo uma corda presa ao teto amarrada em seu pescoço, o corpo do cantor já estava em estado de decomposição, evidenciando que assim permanecia há possivelmente quatro ou cinco dias. Sem aguardar o resultado da necropsia e outras evidências, o delegado de polícia de Imbituba responsável pelas investigações, Haroldo Amorim Vicente, deu por encerrado o caso e define a causa oficial da morte: suicídio. Assim os jornais Zero Hora e Correio do Povo do dia 5 de fevereiro relatavam para os gaúchos a morte de Carlinhos em suas edições com foto e matéria de capa.

Além de músico, Carlinhos era um agitador cultural incansável. Organizou os festivais “Rodas de som”, que aconteciam no Teatro de Arena, em Porto Alegre, ajudando a lançar muitos artistas iniciantes na década de 70, como Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, Musical Saracura, entre outros. Participou do histórico disco “Paralelo 30”, que reunia a nata de um movimento recém criado no Estado: A MPG. Participou de alguns shows ao lado da famosa banda de rock Liverpool, tendo composto o maior sucesso da banda, “Por favor, sucesso”. Seu único trabalho próprio oficialmente lançado chama-se “Risco no céu”, e somente chegou às lojas postumamente.
Hoje, 23 anos depois do acontecido, o que se sabe a respeito da morte de Carlinhos Hartlieb passa bem além daquilo que foi dito pela imprensa na época.

Falar em suicídio é quase o mesmo que tapar os olhos e ouvidos para tudo que já foi desvendado acerca do assunto, e isso é admitido inclusive por profissionais que estavam ligados à cobertura do caso na época. "Ele foi assassinado", relatou recentemente, por telefone, o jornalista Wanderley Soares, editor-chefe de polícia da Zero Hora na ocasião. Dedé Ferlauto, repórter policial do jornal na época e amigo pessoal do cantor, fez questão de cobrir o caso pessoalmente. Foram publicadas 3 matérias. Nelas, se podia verificar algumas hipóteses além do suicídio. Conforme publicado na edição do dia 6 de fevereiro, tratando do sepultamento do músico em Porto Alegre, Carlinhos não teria se matado: “Esta violência (o suicídio) não foi dele. Isso não foi bem contado”, afirmou uma das 60 pessoas que estavam presentes no velório.

Juarez Fonseca, também jornalista da ZH em 1984, publicou um texto na contracapa do caderno “ZH Guia” prestando uma homenagem póstuma ao amigo. O conteúdo da coluna ainda era baseado na versão extra-oficial da polícia, apesar do próprio Juarez colocar em dúvida a natureza auto-destrutiva de Carlinhos: “Nunca o vi deprimido. E foram 17 anos de convivência”. Em entrevista recente, Juarez levanta outra hipótese: “Não podemos nos esquecer que estávamos em plena ditadura militar, e que Carlinhos poderia ser considerado um subversivo. Me lembro que naquele tempo a polícia andava freqüentando constantemente as praias de Santa Catarina”.

No dia 7 de fevereiro, a Zero Hora publicou a última reportagem tentando dar uma explicação plausível ao que de fato ocorreu na Praia do Rosa. Após reafirmar que Carlinhos teria sido morto por asfixia decorrente de estrangulamento, conforme informou o delegado encarregado da investigação, o jornal fecha com uma informação que poderia mudar os rumos do que se sabia até então: “O resultado do auto da necropsia realizado no corpo do músico só será conhecido oficialmente nessa quarta-feira, dia 08/02”. Após isso, nada mais foi publicado a respeito.

No livro “Carlinhos Hartlieb”, de Jimi Neto e Rossyr Berny, consta o resultado oficial do exame de corpo de delito: O corpo foi encontrado sem 11 dentes e não apresentava fratura na coluna cervical – o que exclui a hipótese de estrangulamento. O próprio autor, em entrevista, compara a cena da morte a outro caso notório, ocorrido anos antes: “O Carlinhos estava com os joelhos encostados no chão e sem o pescoço quebrado, exatamente igual ao Wladimir Herzog. Ou seja, suicídio não foi mesmo”. No fim, juntando todas as peças do caso, nota-se uma certa cortina de fumaça pairando pela história. Um dos depoimentos ouvidos conta que o suposto assassino de Carlinhos teria algum grau de parentesco com o delegado responsável pela investigação, o que fez com que tudo fosse resolvido da maneira mais rápida e discreta possível. Rossyr Berny nos dá algumas pistas: “Nunca mais se mexeu nesse assunto porque ninguém quer arriscar o próprio pelego. Tem gente grande envolvida nessa história, então o que nos resta é levantar hipótese”.

À bem da verdade, muito já foi dito e pouco explicado. Além das possibilidades já levantadas, se cogita que a morte de Carlinhos também possa estar ligada a traficantes de drogas e a um marido enciumado. Como disse o cantor gaúcho Mutuca, primo-irmão do músico morto, “Ele foi morto e não temos prova de quem foi, só conjecturas. Uma linha de raciocínio clara foi estabelecida, apontando culpados, mas não podemos acusá-los”.



Térence Veras e Bruno Bazzo

* Ilustração de Lisandro Santos - Cartunaria

4:46 PM Comments:

13.4.07

MICRODRAMA I

Duas moçoilas conversam na penúltima fileira de bancos de um ônibus:

- Vou depilar meu namorado.

- Depilar?

- É... as costas. Ele tá com pêlo até nas costas. E são muito grossos, um horror. Vou depilar as costas dele.

-Meu ex era nadador. Todo depilado. Uma delícia. Até embaixo do braço depilava.

- Ah, não, depilar sovaco não, amiga!

- Mas é que quem nada tem que depilar tudo, né? É assim. E ele era muuuuuito gostoso.

- Pois é. O meu já não. Ele fuma, bebe, tem barriga, é sedentário e peludo. Quero dar um jeito nisso.

- Pede para ele começar a nadar...

Térence

11:15 AM Comments:

2.4.07

SE ESSA RUA FOSSE MINHA


A 16 de julho fica no bairro São João, aqui mesmo em Porto Alegre. É uma rua pequena, estreita, de duas mãos e de paralelepípedos. Bem diferente das várias avenidas movimentadas que a cercam. Em sua extensão toda, não deve medir mais do que trezentos metros. Faz esquina, numa ponta, com a Bejnamin Constant, e é perpendicular á São Pedro e à Felicíssimo de Azevedo. O único prédio com mais de três andares que há, fica no número 42 e é comercial.

No final dela, tem uma pracinha. Quer dizer, pracinha é modo de dizer. Na verdade, é um pequeno pedaço de terra e mato alto, com duas goleiras de madeira branca já tortas. Nunca vi ninguém jogando bola ali.

Logo na bifurcação que se dá no fim do campinho da 16 de julho, tem uma casa muito simpática - de paredes externas ásperas e de cor branca bem viva, além de muitas árvores em frente-, com um jardim florido e um rottweiler bem novinho, mas que cresceu e ficou agressivo demais nas últimas semanas. Basta passar pela calçada para o animal enlouquecer e quase traspassar as grades do portão marrom que o abriga. Ultimamente, acho que se acostumou com a minha figura e tem apenas me fitado gravemente quando passo por ele.

Exatamente ao lado da morada do rottweiler, fica a casa de uma senhora pequena e de cabelos curtos e brancos como algodão. Todas as manhãs, por volta das 9 horas, ela repete o mesmo ritual: varre a garagem, molha as folhagens com a mangueira e dá de comer ao seu gato peludo. O tal gato é um capítulo a parte: de pêlos preto e branco, meio descabelado, sempre depois de terminar a ração, se esparrama no granito gelado da calçada, de barriga pra cima, e toma um banho de sol matinal.

Uma característica agradável da 16 de julho é a sua peculiar flora. Pelo logradouro todo, espalham-se variados tipos de árvores e flores coloridas. Nas amuradas e janelas das casas, é comum ver um tipo de trepadeira que dá uma flor amarela, rosa, ou vermelha, de cinco pétalas lisas, cujos galhos maleáveis enroscam-se pela silhueta das residências. O resultado é uma prazenteira cerca viva e colorida que percorre toda a extensão da rua.

As construções são de arquitetura estilo colonial européia. A maioria das casas têm dois andares e parecem todas grudadas umas nas outras, formando um grande bloco. Não sei se é proposital. Acaba que tudo isso junto dá um certo ar bucólico aos finais de tarde nublados da 16 de julho.

Primoroso mesmo é caminhar pela 16 de julho! Pena eu estar sendo, em parte, irônico: percorrer o pouco espaço dela, pode significar uma aventura. Não pela eminência de topar com um dos gatunos de carro que, de vez em quando, dão o ar da graça. Tampouco pelos carros apressados que no decorrer do dia por ali passam. O problema é a calçada. Cada passo dado pode virar um tropeço para um desavisado, tamanho é o desnível e a quantidade de buracos. Fora os galhos das árvores que invadem o caminho e te obrigam a cometer esquivas dignas dos melhores boxeadores.

A atração principal dessa peculiar ruela pode ser o seu clima a noite. Quando vêm as estrelas, parece que somos transportados para outra cidade: o silêncio é quase absoluto, rompido apenas pelos grilos e pelos latidos alternados dos cachorros que acoam por todo o lado. Na rua não há ninguém e muito menos carros estacionados ou andando. As folhas das árvores balançam com a brisa típica e produzem um som saborosíssimo. Os gatos caminham desconfiados pelos cantos. E nada mais...

A penumbra, que resulta da pouca iluminação, vai se desfazendo devagar ao findar da 16 de julho. Não há quadras dividindo ela, nem canteiros. Só a esquina da Benjamim, onde tudo acaba.

Térence Veras

4:01 PM Comments:

26.3.07

I

Eu prefiro ser cobrado,
Exigido.

Não massacrado
Nem punido.




Térence

11:07 AM Comments:

23.2.07

Rumo

Acordei sem rumo. Procurei embaixo do lençol, nas dobras dele, no fundo da alpargata, no cesto de roupa suja. Olhei atrás da cortina, dentro do box, no fundo da geladeira, nas frestas da parede, no buraco da fechadura, atrás do sofá, embaixo das almofadas, na gaveta do armário, na prateleira da sala, na mesinha de centro, de cabeceira, de jantar. Todo apartamento.
Procurei então em mim. Entre meus dedos, atrás da orelha, debaixo do braço, nas costas, na virilha, no canto das unhas, dentro da boca, do nariz, do olho.
Foi só um tempo depois, meio sem querer, que encontrei. Bem longe de onde eu perdi.



Pedro

* Foto: Térence

1:12 PM Comments:

21.2.07

Crianças

Samantha tem medo do escuro. Deixa a TV ligada à noite e se cobre toda, mesmo no verão. Sua mãe a acorda às 7h45. Ela toma banho de olhos fechados e não usa condicionador. Seu café da manhã, ao contrário do recomendado, não é reforçado. Leite frio com Nescau e uma maçã. Espera o transporte na frente de casa, ainda comendo a maça. Senta no banco da frente, entre o motorista e Rogério.
Rogério não estuda para nenhuma prova durante o dia, dorme. Às 6h00 da manhã seu despertador toca. Sucrilhos com leite são seu reforço matinal. Ele escova os dentes dentro do box e se veste pra escola. Espera o transporte no quarto com o caderno no colo. Quando a buzina toca, fecha o caderno, calça os sapatos e corre. Rogério senta no banco da frente ao lado de Nuno.
Nuno joga futebol nas quartas-feiras, seus jogos acabam sempre em briga. Ele não começa nenhuma. Às 5h20 pula da cama, enfia os pés no chinelo e toma um copo de suco de laranja. Faz 3 séries de 30 apoios antes do banho. Nuno leva os filhos dos outros para escola. Os que sentam na frente são sempre os mais velhos.

Pedro

10:14 PM Comments:

1.2.07

Corredor 6

Ela:
A decisão é minha.
Ele:
Só tentando ajudar.
Ela:
Já decidi.
Ele:
Tá querendo ser do contra. Inventando moda.
Ela:
Nada disso, tô usando a lógica.
Ele:
Pega esse e deu.
Ela:
Nem tô considerando esse. Tô em duvida entre esses dois.
Ele:
Saco mesmo...
Ela:
Em vez de resmungar, porque não vai adiantando?
Ele:
Não falta nada.
Ela:
Humm, quem sabe vai pegando lugar na fila.
Ele:
Tem um monte de caixas, não precisa...
Ela:
Acho. Que. É. Esse. É, vou levar esse daqui.
Ele:
Tu que sabe, mas já aviso...
Ela:
Aviso o que?
Ele:
Tu sabe disso, marca diabo, não conheço um que use.
Ela:
Como tu conheceria?
Ele:
Sei lá, ouvindo falar.
Ela:
Falar é? Quem falaria disso?
Ele:
Ah, as pessoas conversam.
Ela:
Disso?
Ele:
Entre outras coisas.
Ela:
Com quem tu conversa disso...e outras coisas?
Ele:
Não enche. Quer comprar compra.
Ela:
Vou comprar mesmo. E tu vai gostar do cheirinho.
Ele:
Tá bom.
Ela:
Já tô vendo.
Ele:
Aham.
Ela:
Tu viu a empresa que fabrica? Tá no mercado há 20 anos.
Ele:
E eu nunca ouvi falar.
Ela
Exatamente, porque são especializados! Não precisam investir em propaganda. É no boca a boca. Ah? Ah? Boca a boca?
Ele:
Esse é teu critério?
Ela:
Um deles.
Ele:
E esse? Porque não esse?
Ela:
Têm outras coisas com esse nome.Quem faz uma coisa só, tem que fazer bem feito.
Ele:
Essa é tua desculpa?
Ela:
Uma delas.
Ele:
Vamo?
Ela:
Vamo.
Ele:
Tava em promoção?
Ela:
Metade do preço.

Pedro

7:56 PM Comments:



UM QUASE CONTO DE VERÃO COSMOPOLITA - PARTE II

O Rafão foi fazer o que realmente lhe agrada: andar de bicicleta. Mas o que faz das pedalas recompensador são as paradas pra descanso, nas praças que ficam nas esquinas dos prédios. Lá, senta naqueles bancos de cimento cinza e fica a olhar os senhores que jogam damas.

Um dos velhos, enquanto move uma peça e ajeita o chapéu branco de algodão muito branco, irrompe:

- Eu tinha um tio que guardava gibis no armário de um quarto que pegava pó. Foi lá que aprendi ler. Meu tio tinha um problema de audição, por isso não via televisão. Claro, não entendia, era surdo. Aí lia gibi! E eu lia junto com ele.

O outro velho, também fazendo um movimento estratégico em suas peças - que eram as pretas - se atravessa:

- Eu já sabia ler antes mesmo de entrar na primeira série. Fiz isso meio na intuição. Meu pai não conversava comigo, era muito introspectivo. Mas ele lia jornal sentado na poltrona da sala, logo depois de chegar do trabalho. E eu o imitava. Aí assimilei as palavras assim, por associação... Tive até problemas na escola depois porque só escrevia com letra de imprensa. Minhas professoras me obrigavam a fazer aulas de caligrafia...

Rafão apenas ouvia. Levantou. Colocou seus fones no ouvido e saiu a pedalar.

Térence

12:17 PM Comments:

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