O mundo é como um malmequer,
O vemos, mas não pensamos nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
Mas para olharmos pra ele e estarmos de acordo
Andando pela cidade em uma manhã fria e de solzinho bacana dessas, buscando conversas alheias que pudessem render um material bom pra algum microdrama (a rua é o melhor laboratório pra isso!), ouvi algo que me fez refletir. Não peguei bem o início nem o fim da conversa. Apenas uma pergunta solta, dita por uma senhora à outra, me chamou a atenção: “Teu marido te faz feliz?”
Depois disso, o caos da metrópole deu conta de abafar o som da resposta. Mas eu já nem precisava mais dela. Fiquei imaginando o que eu diria, caso essa pergunta fosse dirigida à mim, e nas possíveis derivações dessa questão.
Uma pessoa me faz feliz?
Alguma coisa me faz feliz?
O que me faz feliz?
E aí minha imediata reação é: eu dependo de qualquer coisa pra ser feliz?
Objetivamente: Nada me faz feliz. Eu sou feliz.
Feliz Cidade
Féli Cidade
Há Legria
Feliz Idade
Tá, impossível não impregnar o texto com tom piegas quando o assunto tratado é esse. Sempre vai parecer livro de auto ajuda. Mas como estes livros sempre versam sobre o lugar comum, serei aqui óbvio também.
Nossa felicidade independe das 'coisas'. Felicidade não deve ser um estado de espírito. Acho que se em algum momento necessitarmos de algo ou alguém para sermos felizes, estaremos com um problema.
Se temos a certeza da impermanência, de que nada é estático, seremos felizes com ou sem dinheiro, com ou sem carro, com ou sem aquela guitarra maravilhosa, sozinhos ou acompanhados. A felicidade deve estar sempre contida em nós.
Mesmo em momentos tristes, sou feliz. Quando perdi minha mãe, por exemplo, ainda assim, era feliz. Claro que a dor é inevitável, mas a tristeza que se sente em uma hora dessas é muito inferior à felicidade que há em lembrar de todo o amor que existia na nossa relação.
Lidando de frente com a morte, aprendi que a tristeza é passageira e que o amor, o perdão a compreensão são eternos. É só nesse ponto que discordo do Vinicius, quando ele diz que 'tristeza não tem fim, felicidade sim'.
A grande maioria das pessoas adora arranjar motivos para não ser feliz. Muitas passam uma vida procurando a tal felicidade e dizem ainda não tê-la encontrado. E ainda pior, responsabilizam tudo e todos por sua infelicidade, quando, na verdade, só quem consegue tal proeza somos nós mesmos.
Então, não estejam felizes. Sejam felizes! E não procurem a felicidade. Ela já vem com a gente.
Um casal namora sob uma frondosa árvore, em um entardecer luminoso de outono. Ele delicadamente desliza a mão por sobre a face de sua amada e afasta uma pequena mecha de cabelo que ali pendia:
- Como estás especialmente linda hoje: Teus olhos tão reluzentes, teu cabelo macio, tua pele perfeita e teus lábios apetitosos...
Quem se interessa por música, ou mesmo por línguas, já deve ter percebido que no Tango – tanto no argentino quanto no uruguaio – há incidência de palavras que não são bem do espanhol. Ou que pelo menos não fazem sentido quando empregadas em certas frases dele. Pois a culpa disso é do Lunfardo. Essa gíria portenha nasceu praticamente junto com o tango-canção, lá pela época da primeira guerra mundial. Formou-se em meio a bairros pobres e marginais de Buenos Aires e era difundido pelos milongueiros (figura que podemos comparar aqui com o malandro-de-morro-sambista. A própria origem do nome remete ao preconceito: lunfa quer dizer ladrão).Também era usado como forma de comunicação entre a malandragem hermana para sair ganhando da polícia. Aliás, aqui cabe um adendo. Pode parecer estranho para um espectador desatento, mas o tango, originalmente, era música de pobres. Só ganhou status graças ao Seu Gardel, quando cantou “Mi Noche Triste” no chique Teatro Empire, em 1917. Foi Gardel (francês de nascença, mas argentino de criação) quem tirou o tango das calçadas e o transformou na sólida instituição cultural que ganharia o mundo nos anos seguintes.
Linguisticamente, o Lunfardo é formado por substituição de substantivos, verbos, adjetivos e interjeições castelhanas por termos cujo significado seria modificado, provenientes da germania, do caló, do italiano e seus dialetos, do francês, do português, do inglês, das línguas indígenas, e inclusive de palavras hispânicas às quais se atribuiu um sentido que nada tem a ver com o original. Outra característica dele é inverter a ordem das sílabas, como em em tango, mujer e pedazo ( gotán, jermu e zopeda).
Pelos portos do Rio de Janeiro e Santos entrou e se misturou ao nosso falar coloquial:
Notem outras palavras conhecidas nossas no tango “Mano a Mano” - que já é uma expressão familiar (de igual para igual).
Se dio el juego de remanye cuando vós, pobre percanta,
Gambeteabas la pobreza em la casa de pensón.
Hoy sós toda una bacana, la vida te ríe e canta
Los morlacos del otários los tirás a la marchanta Como juega el gato maula com el mísero ratón.
Percanta é como se chamam as meretrizes. Gambetear é se esquivar. Bacana é vida mansa; O otário é o revés do malandro. Marchanta é golpe (influência italiana).
Mais do Lunfardo pode ser ouvido em tangos clássicos, que, inclusive, têm participação de um paulistano: Alfredo Le Pera, um dos grandes parceiros musicais de Gardel. Dentre suas composições constam “Mi Buenos Aires Querido”, “El Dia En Que Me Quieras”, “Amargura” e “Cuesta Abajo”.
Mas essa incursão brasileira pelo gênero tipicamente argentino é outro post!
14.5.09 Tentando explicar o que não tem explicação
Uma declaração de amor é sempre louvável, por mais maluca e incompreensível que ela possa parecer. Então, o que pensar de uma cujo mote é: nosso amor é esquizofrênico? Chocante à primeira audição, eu sei. Mas essa simples frase esconde nela uma simbologia tão significante que não pode ser analisada pura e simplesmente sob o aspecto literal e científico. Até porque quando o assunto é amor nada faz muito sentido.
Porque um amor esquizofrênico é um amor que se contradiz, mas é puro e verdadeiro. É um amor fantástico, que é tudo ao mesmo tempo: sagrado e profano, intenso e suave, lascivo e casto, de amigo e de amante, repentino e planejado, livre e apegado, musical e silencioso, e que se faz de erros e acertos.
Um amor esquizofrênico te causa delírios, te deixa catatônico e te faz acreditar em coisas que nunca imaginasse existir! E que talvez nem mesmo existam - podem ser um sonho -, mas são tornadas realidade diante desse sentimento que te toma por inteiro.
Muitos gênios eram esquizofrênicos, mas poucos amores o são. Porque um amor esquizofrênico é aquele que te enlouquece, que te faz ser quem nunca fosse...te faz ser louco de amor!
- Seguinte: tá insustentável essa situação pra mim. Que que tá acontecendo?
- Acontecendo com o que?
- Com a gente
- Nada
- Nada?
- Eu não te liguei no final de semana por respeito.
- Respeito?
- É, já que não posso te dar o que mereces.
- E lá tu sabe o que eu mereço? Tu sabe o que eu quero?
- Não
- Preciso dizer o que quero?
- Diz
- Tu é o que eu quero
- É, mas eu não sei o que EU quero. Tou cheia de coisas pra resolver. Olho ao meu redor e não sei por onde começar. Muito abacaxi pra descascar.
- Essas mazelas tavam aí quando nos apaixonamos, e até então não tinham interferido nessa nossa coisa bacana.
- Pois é. Mas não é nada contigo. É comigo.
- (risos).Tu não pode usar essa. Essa todos usam.
- Eu quero meu tempo, minhas coisas.
- Tu sempre teve, que eu saiba.
- Não quero ir pra minha viagem e ter um compromisso aqui. Não quero ficar procurando sinal no telefone pra ligar pra ninguém.
- Mas e nem eu quero isso. Tu tá criando uma relação de dependência que não existe
- Existe
- Existe?
- Sim. TU é dependente de mim
- Sou?
- Eu quero um homem, não um filho
- Oquei. Posso concordar. Talvez eu não tenha percebido isso
- Tu me choca. E eu não quero ser chocada a todo instante.
- Te choco porque te instigo, te faço pensar fora dos limites impostos pela nossa própria razão, te mostro o caminho do subjetivo, da abstração.
- Eu tou montando meu quebra-cabeças. E nossas peças tão desencaixando.
- Então vamos rearrumar elas. Talvez alguma esteja só fora de lugar. Deixa nossos corações guiarem a montagem. Porque pode ser que a tal dependência não seja minha
- Lá vem tu com papos de projeção
- Não, não. Tou achando que o que te faz ter a sensação de que EU sou dependente de ti é que, na verdade, TU não é dependente de mim. E é isso que tu idealiza: ser dependente e ganhar colo.
- Será?
- Tu não quer um homem, quer um pai.
- Eu percebi que não vamos dar certo. Por isso essa coisa abrupta. Eu sou assim. Mudo de canal e pronto, tu sabe.
- Não sei se me conformo com isso. Pelo pouco que te conheço, sei que existem sentimentos muito lindos e muito mais profundos do que demonstras. Só que tão guardados aí. E mesmo quando afloram, porque é inevitável que eles venham à tona, tu percebe isso e reajusta o dial.
- Tenho medo.
- Todos temos. E reconheço que posso ter desencadeado essa tua reação sendo omisso em relação a certas atitudes.
- Deixa a borboleta voar. Quem sabe ela não volta pro teu ombro?
- Lembro de uma vez em que tu perguntou mais ou menos assim: 'e se eu me apaixonar?'. E eu fui evasivo. Mas porque me assustei. Eu já tava apaixonado também
- Agora eu é que tou assustada.
- Eu sei. E quero tentar arrefecer essa sensação. Tou disposto à isso.
- Eu não sei à que estou disposta.
- Se tu não me quisesse de verdade, já terias dito.
- Verdade
- A chave do teu AP. Tenho que te devolver.
- É, tem. Quando?
- Se tu quiser, passo aí agora mesmo e te largo ela.
Sempre vai ter alguém melhor do que nós. O que não impede que eu faça o meu melhor. Esta frase, que me soou bem - e surgiu durante divagações idiossincráticas -, chegou junto com alguns outros conceitos que me fizeram vislumbrar caminhos menos doloridos para conflitos que assolam a todos nós humanos (demasiadamente humanos).
Não cabe a mim ficar listando aqui quais são esses antagonismos e a maneira com a qual lidamos com eles. Cada um sabe do seus monstros e das suas bengalas. O que proponho é uma reflexão sobre o que nos motiva viver, o que nos faz abrir os olhos de manhã e o que não nos motiva. Porque no cerne de toda essa guerra confusa de sentimentos, crenças e razão, está a nossa vontade de resolver o que parece estar estático. E pessoas não suportam conviver com o que não tem movimento.
O que nos faz pessoas é a capacidade que temos de mudar. De tropeçar e levantar. A metáfora do rio, nessas horas, sempre funciona: ele tá sempre ali no mesmo lugar, mas nunca é o mesmo. A água de dentro dele tá sempre em movimento. O rio muda a cada instante. Só que continua tendo a mesma essência.
Essência.
X
Consciência Reflexiva
Nós somos o que somos. Tal raciocínio até é piegas. Mas não deixa de ser simples e verdadeiro. Vivemos numa redoma de padrões. E além de nos embutirem padrões, ainda querem que os sigamos num espaço de tempo determinado. O que nos tira a vontade de fazer o nosso melhor. E é talvez nesse aspecto que podemos encontrar um caminho alternativo para o que está mais ou menos dentro de nós: fugir dos padrões e do tempo.
O mais ou menos não nos basta.
É muito fácil seguir caminhos certeiros, que já foram trilhados outrora. Mas e a novidade? E a experiência? E o desvendar o desconhecido? A razão das pessoas se fazerem miseráveis é a monotonia existencial. Não queremos experiências repetidas. Quando isso acontece, nos afastamos do causador dessa sensação. Seja ele um pensamento, um sentimento, uma atitude ou uma pessoa.
Levamos a vida como uma alegoria. O Modus operandi estabelecido aqui em nossa época e espaço é esse: representamos a idéia do nosso mundo perfeito através de imagens. O problema é que grande parte de nós não quer a mesma imagem que todos os outros. Queremos pintar nosso próprio quadro. Queremos a tela em branco e a sala vazia e em silêncio, para que possamos dar nossas pinceladas ao nosso ritmo. Sem uma forma pré-estabelecida, sem um desenho por trás para nos guiar, sem as cores ordenadas para nos facilitar.
Claro que nem todos temos a mesma maneira de desenhar. Há quem já consiga traçar um esboço de sua tela muito rápido e de um jeito bem concreto. O sentido da vida difere de pessoa para pessoa, de um dia para o outro, de uma hora para outra. É subjetivo. E por isso é belo . Cada qual tem sua própria maneira de executar uma tarefa concreta e isso é que torna cada ser humano peculiar, único, com uma grande possibilidade de cumprir o que é estritamente necessário. Portanto, não acho que devamos nos fixar no melhor dos outros. Façamos o nosso melhor. E, juntos , teremos o melhor de todos.
A primeira música é de Elomar de Figueira Mello. O primeiro som é o de uma viola caipira seguida por uma rabeca. O clima é árido e o sotaque nordestino. A voz, forte e saborosa - cantando os desejos de uma mulher nordestina -, é de uma gaúcha. Dois minutos depois, um fado do Madredeus. Em seguida, um choro-canção do Arthur de Faria - que musicou poesia comovente de Marcelo Sandman.
É com esse pequeno desfile de tremendo bom gosto que Vanessa Longoni começa o seu disco recém saído do forno, A mulher de Oslo. O nome já soa familiar a muita gente, creio. E parece que o cd tem mesmo a intenção de sintetizar o premiado espetáculo da Vanessa: contar histórias através de canções. E logo na quarta canção, um tango de Goran Bregovic, percebo que não há mais nada a fazer, se não sentar, fechar os olhos e ouvir o que mais aquelas várias mulheres contidas numa só têm pra me dizer.
Tudo começou com um pequeno conto do uruguaio Eduardo Galeano, que retrata uma cantora em Oslo contando e cantando seus mais comoventes sentimentos, tirados de papeizinhos que estão em sua saia. Partindo daí, Vanessa montou o show 'A mulher de Oslo' e percorreu, durante dois anos, o Estado inteiro, lotando teatros e arrebatando o Prêmio Açorianos de melhor espetáculo de 2006, até consolidar a idéia com o disco.
Recheado de sofisticação, o trabalho de estréia da Vanessa é uma colcha de retalhos que vai sendo costurada ao pé do ouvido e colorida por composições que nos levam a dar uma volta pelo globo terrestre. Vai-se do sertão brasileiro aos Bálcãs europeus em um instante. Claro que esse mosaico auditivo não se forma apenas com as interpretações certeiras da cantora. A banda base (Arthur de Faria – também produtor musical do disco-, Angelo Primon, Clóvis Boca e Diego Silveira) é ingrediente fundamental na construção desse caleidoscópio de diferentes sotaques. E as participações especiais são a cereja no bolo norueguês: tem o pernambucano Siba, os porteños Martín Sued e Pablo Jivostovichii ( da Orquesta Típica Fernández Fierro), o genial pianista uruguaio Hugo Fattoruso, o Seu Conjunto do Arthur, Marcelo Delacroix, Hique Gomez... Tudo soando regionalmente universal.
O que mais empolga é que não estamos apenas diante de um disco bem acabado e de qualidade incontestável. Mais do que isso. A sensação é de que, a cada audição, as músicas melhoram, tomam formas e adquirem nuances não compreendidas antes, trazendo à tona imagens inconscientemente guardadas em nosso mais profundo universo particular. No fim, A mulher de Oslo deixa algo no ar: não são histórias de mulheres de todos os cantos, que cantam seus mundos. É a história de um mundo encantador, cantado com uma delicadeza tocante e composta por sons que ecoam daqui, dali, de qualquer lugar.
Show de lançamento do CD Bailadêra em que o grupo Maria vai com as outras comemora seus dez anos de estrada musical.
Regina Celis,
Débora Dreyer,
Vanessa Longoni e
Cláudia Braga
dão o tom certo de todas as aventuras musicais em um universo cheio de sensibilidade e surpresas.
Acompanhando os vocais das "Marias" um grupo de instrumentistas de intensa atuação na nossa música:
Cris Bertolucci ___Bateria
Carlos D'Elia_____Baixo
Alexandre Vianna__Piano e Teclados
Angelo Primon____Violão e Guitarra
Com participações especialíssimas dos músicos:
Luciana Prass____Violão
Matheus Kléber___Acordeom
Edu Pacheco_____Percussão
Térence Veras____Violão e Guitarra
Será, sem dúvida,uma grande festa! Aguardamos todos!!!
Dias 27, 28 (21h) e 29 de Junho (20h) no Teatro Renascença.
Serviço:
o quê - lançamento do Cd Bailadêra, do grupo Maria Vai Com as Outras - 10 anos (Financiamento do Fumproarte)
quando - 27, 28 e 29 de junho, 21h sexta e sábado, 20h no domingo
onde - teatro Renascença (Centro Municipal de Cultura - Av. Érico Veríssimo, 307)
quanto - R$20,00 inteira ou 50% de desconto (R$10,00) com a entrega de 1 kg de alimento ou 1 peça de roupa - projeto solidário; 50% de desconto também para sócios do Clube do AssinanteZH
E está entrando no ar mais um programete auditivo aqui do Idiossincrasia. O tema que abordo nessa edição é música e política. Mais especificamente, a feita na chamada era de ouro, que abrange os anos 30,40 e 50. Vou mostrar como a música popular pode e deve ser usada para conhecer melhor o país. Nesse caso, o Brasil durante a época da ditadura Vargas.
Abaixo segue a lista de músicas que usei e seus respectivos autores - e quando consegui, intérprete . É bom ressaltar que a quantidade de músicas com teor político dessa época é enorme. Pincelei apenas algumas que serviram para ilustrar as histórias desse tempo.
Esse curta metragem foi produzido durante meu curso de jornalismo na PUCRS. Sim, tínhamos algumas cadeiras de cinema. E numa delas acabei dirigindo um filme. É óbvio que trata-se de um trabalho feito por quem não tinha nenhuma experiência na sétima arte.
Sempre fui fervoroso amante do cinema, mas daí a dirigir um há um abismo. Mesmo assim, publico aí o Natureza Morta a título de curiosidade.
O roteiro tem como argumento um conto do nosso Daniel Galera - que está no livro Dentes Guardados.
A montagem é do meu amigo, cineasta e colega de blog, Pedro Mahfuz.
Duas ex-colegas de faculdade se reencontram casualmente depois de alguns meses:
- E ai, guria, como tu tá?!
- Tudo bem, tudo ótimo.
- Tá diferente.
- Tou?
- Parece... mais magra
- É, emagreci mesmo
- Dieta?
- Mais ou menos. Virei vegetariana
- Nossa, que bacana. Só na carne branca, então?!
- Não, não, VE GE TA RI A NA. Não como nada que tenha rosto, ou origem animal.
- Ah, entendi... claro. Mas nada nada mesmo? Tipo...manteiga?
- Não, só margarina.
- Leite, ovo...?
- Bom, na verdade agora sou ovolactovegetariana.
Térence Veras 12:26 PMComments:
4.4.08 ESTRÉIA NOVO FORMATO NO IDIOSSINCRASIA
Tendo como mote a calorosa apresentação da Banda Mantiqueira que rolou lá na Reitoria da UFGRS - dentro do sempre louvável Projeto Unimúsica-, resolvi dar uma 'inovada' cá no Idiossincraisa e tornar o blog um pouco mais multimídia. Eis que apresento o primeiro podcasting do nosso site, tendo como tema justamente a Mantiqueira
Térence Veras - produção e apresentação do programa e fotos 7:24 PMComments:
27.3.08 MICRODRAMA LISÉRGICO
- Escolhe!
- Qualquer um?
- É. Qualquer um.
- São todos iguais?
- Não. Cada um é um diferente. Cada um uma experiência.
- E como escolher?
- Vai na intuição
- Me dá uma dica
- Tu precisas de mais devassidão na tua inquietude...
Quem ainda não teve a oportunidade de assistir A Mulher de Oslo, por favor o faça com urgência. Já rodando pelo estado há mais de um ano, o show, que tem como protagonista a cantora Vanessa Longoni, é, pelo menos, audacioso e original.
O mote do espetáculo vem de um conto de Eduardo Galeano (escritor uruguaio que merece ser lido) de nome A paixão de dizer, que fala de uma mulher em Oslo que canta e conta histórias de sua vida. E é nesse ponto que a pequenina Vanessa vira uma gigante. Tanto pelo sua grande voz, como pela sua hipnótica presença de palco.
Tive a sorte de estrear na platéia da Mulher de Oslo em um teatro que proporciona uma intimidade além do comum entre artista e público: o Teatro de Arena - que, como o próprio nome diz, distribui as pessoas ao redor do palco. Aí é só alegria!
Do início ao fim, A Mulher de Oslo é poesia. A começar pelo cenário, que lembra uma praça durante o outono, com banco de madeira e folhas de plátano secas tapando o chão. Essas folhas secas fazem parte, aliás, do contexto musical da coisa. Porque os músicos caminham pelo palco, pisando nas folhas, e transformando aquele ruído em nuance de som.
De início, a banda entra sozinha, ainda sem sua maestrina. E o primeiro tema não poderia ser mais propício: Dona tá Reclamando – de Dominguinhos Minguinho -, em que os músicos cantam em uníssono o refrão que dá nome à música. E em meio ao clima meio navio negreiro que começa a se instaurar, salta Vanessa, invadindo e tomando de assalto o palco com uma energia sul real. A partir daí, a voz de Vanessa desliza por canções que vão de Elomar e André Abujanra até Alanis Morrisete e Goran Bregovic, sem deixar de fora coisas aqui dos pampas e do prata – Nico Nicolaiewski, Arthur de Faria e Leo Maslíah.
O timbre de Vanessa é privilegiadíssimo e versátil: Potente, suave, agressivo, sensual... Sua fluência em cantar em inglês, espanhol é a mesma que com o português – ela faz isso parecer fácil.
Mas música e cenário são apenas uma parte da Mulher de Oslo. Cada música é intercalada por um texto muito bem costurado e perfeitamente interpretado por Vanessa. Ou por uma instrumentação igualmente redonda.
Enfim, não estamos diante de um simples show musical. Ali temos uma história sendo contada. Com início, meio e fim. Com ritmos, timbres e vozes de todo mundo – dá pra ouvir fados, unza-unza-music, tangos, baladas...Com piano, acordeon, sitar com distorção, viola com delay, violão, baixos, tambores... Um deleite só. Como todos os shows deveriam ser.
A Mulher de Oslo tem - além da já bem citada Vanessa Longoni cantando:Arthur de Faria (piano e acordeon), Angelo Primon (sitar,violas e violões), Clóvis Boca Freire (baixo acústico e elétrico) e Diego Silveira (percussões - baldes, panelas & o que pintar).
Ando lendo “Memoria de mis putas tristes” – claro, em espanhol-, do mestre Gabriel Garcia Marques. A obra é uma demonstração de maturidade e excelência no manejo das palavras; O livro é narrado todo em primeira pessoa e começa com o personagem principal do romance querendo dar a si próprio um presente muito especial naquele seu aniversário de 90 anos: uma louca noite de amor com uma menina virgem. Bom, esse causo se desenrola até o final das 110 páginas, e não tem quase sacanagem, ao contrário do que se possa pensar. No livro Gabriel tece diversos mini ensaios sobre a existência humana, sobre amor, sobre sexo e sobre a velhice. Foi numa dessas passagens sobre a terceira idade que me veio à cabeça uma foto inspiradíssima tirada pelo meu amigo publicitário André Carrasco. O modelo é este que vos escreve, mas o bom mesmo da foto é a atmosfera capturada pelo André.
Então, segue uma tradução do trecho e a foto. Acho que no momento do clique eu deveria estar pensando mais ou menos nisso:
(...) Desde então comecei a medir a vida não por anos e sim por décadas. A dos cinqüenta havia sido decisiva, porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais jovem do que eu. A dos sessenta foi a mais intensa, pela suspeita de que já não me sobrava tempo para equivocar-me. A dos setenta foi temerosa por uma certa possibilidade de que pudesse ser a última. Ainda que, quando acordei vivo na primeira manhã dos meus noventa anos, na cama feliz de Delgadina, me ocorreu a idéia complacente de que a vida não fora algo que passa como o rio inquieto de Heráclito, e sim uma ocasião única de virarmos de lado na grelha e continuar assando por mais noventa anos. (..)
Sim, a nossa salvação é realmente o improviso. Porque é dele que surgem idéias novas, que podem apontar pra coisas ainda não feitas nesse universo musical . E essa pulga me mordeu a orelha nessa sexta que passou, logo após um delicioso show do Arthur de Faria & Seu Conjunto lá na Livraria Cultura.
Mas, como diria Jack, vamos por partes.
Um trio em forma de contos de fada
Tudo começou um dia antes, na quinta, quando fui assistir ao primeiro show do trio Rásimo no bar Ocidente. Só de saber de antemão a formação e a proposta do grupo já me lambi os beiços. O projeto é encabeçado pelo baterista e percursionista Diego Silveira (nova promessa da composição moderna brasileira, que também toca no Conjunto do Arthur e é um dos fundadores das bandas Faskner e Relógios de Frederico), atacando tachos de cobre e alumínio, tambor africano, tambor paraense, djembe, pandeiro, lixeira e outros utensílios de plástico. No interesse de pesquisar timbres novos e achar sons diferentes, Diego juntou suas idéias e baquetas com seu colega de Relógios de Frederico, o soprista Rodrigo Siervo - sax barítono, sax de bambu, pífanos e ocarinas (ouçam o Siervo também na Camerata Brasileira) – e o meeeeeeestre e cada-vez-mais-multi-instrumentista Ângelo Primon (hors concours das cordas em Portinho. Confiram o disco dele Mosaico) – viola caipira, sitar, viola de cocho e berimbau – pra unicamente improvisar.
É inexplicável definir o que acontece numa apresentação dessas. Até porque nem mesmo os próprios músicos sabem e prevêem. O que se pode dizer é que há uma interação muito forte entre instrumentistas e instrumentos a favor de um único movimento: fazer música. Só essa atitude já seria louvável. Porém, o que deu pra perceber no trio Rásimo foi um frescor musical e uma vontade de tocar que há muito eu não via por aí.
O pouquíssimo público presente no Ocidente (explicado pela concorrência do circo da china e de um show da Ultramen no mesmo dia) propiciou um clima ainda mais intimista. Pra quem pensa que três caras improvisando sabe-se lá por quanto tempo em seus instrumentos inusitados é chato, recomendo dar uma ouvida com cuidado no Rásimo. A musicalidade que se faz sentir é de causar verdadeira comoção.
Já de início, salta uma linha descoladíssima de sax barítono e nada mais. Só pra criar um clima. A partir daí, um mar de idéias musicais começa a tomar conta do ambiente, enquanto Ângelo e Diego vão indo atrás do motivo que o Siervo lançou. Os timbres que resultam daquela simbiose de sons aparentemente diferentes aos ouvintes mais desatentos são quase palpáveis. A certa altura juro que tentei agarrar com as duas mãos um solo de sitar do Ângelo, mas logo em seguida me dei conta de que era fisicamente impossível.
Em meio aos climas que vão surgindo – cada um melhor que o outro -, os instrumentos também vão sendo alternados, mas sem perder em nenhum momento a uniformidade do som que ali está estabelecido.
Outro fator que fica claro durante esse desfile de bom gosto musical é a brasilidade dos músicos da Rásimo. Não sei se ouvi bem, mas até baião eu saquei num dos momentos da apresentação e tenho certeza de que rolou uma citação de “Cidade Maravilhosa” em um dos solos de berimbau com slide do Primon! As melodias tiradas pelo Siervo dos seus brinquedinhos de assoprar são de se refestelar e, pasmem, as que Diego concebe nas suas bacias de cobre também são deslumbrantes – poucos percursionistas conseguem usar suas armas rítmicas melodicamente tão bem.
Creio que o que aconteceu naquela noite no Ocidente foi mais do que um espetáculo musical. Foi uma bela e emocionante fábula, com início meio e fim, conduzida por três instrumentistas que têm muita história nova pra nos contar. Confiram aqui uma amostra.
Música pra ouvir sentado
Aí veio sexta. E em troca de um quilo de alimento fui ver o novo repertório instrumental do Arthur de Faria & Seu Conjunto na livraria Cultura. Crianças e idosos saiam da sala. O Arthur tá compondo cada vez melhor e criando umas peças beeeem dodóis. O entrosamento da banda é visível. Mas o mais bacana é que o Art faz uma música inegavelmente de vanguarda, bem-humorada e sem ser chato, além de misturar ritmos latinos (tem bolero, habanera, tango, milonga etc) com um viés jazzístico-mas-nem-tanto que geram umas nuances agradabilíssimas aos ouvidos.
A formação do Seu Conjunto (Baixo, guitarra, bateria, piano, sax alto, fagote e trombone) torna a exposição dos temais ainda mais interessante, em função da combinação dos timbres e da execução dos músicos - todos cobras que eu nem vou citar, porque senão vira babação de ovo.
O show é completamente instrumental e com muito espaço pra improviso de todo mundo, inclusive do dono da banda – que assumidamente não é um improvisador! E os guris estavam endiabrados naquele fim de tarde. Até porque os temas dão margem a isso.
Os pontos mais altos foram Osvaldo y Astor en Vênus - tango doente que o Art fez em homenagem a dois papas do ritmo porteño Osvaldo Pugliese e Astor Piazzola -, Fables of Faubus – do grandessíssimo e, ainda bem, louco de atar Charles Mingus-, 25 de Março – um rápido free jazz valseado que é uma verdadeira loucura – e o melhor do show: Prenda Minha. Só que na versão do Artur. O clássico do cancioneiro gaúcho ganhou um arranjo polifônico que fez dois casais (já de cabelos bem branquinhos) que estavam sentados ao meu lado saírem correndo da pequena sala de audição. Uma maravilha! Mais no site oficial e no fotolog.
Sentados en una escalera dos hombres conversan. El más alto, sentado a la derecha, tiene manos grandes, que insisten en dibujar el aire mientras habla. Tiene el rostro extraño, los huesos le estiran la cara, sus ojos quedan en dos hoyos profundos del cráneo, y tiene piernas de langosta. El hombre de su izquierda es más bajo, aunque sea más alto que la mayoría de las personas, tiene pelo rubio largo y es tan delgado como el otro. Este no habla mucho, cuando dice alguna cosa, es solamente una pregunta o una divagación. El que más habla es el de piernas de langosta. Y la conversación es más o menos así:
- ¿Estás preocupado? ¿Pero con qué? Ya te dije, no hay ninguna preocupación y esta es la verdad.
- ¿Perdón?
- Mira, si te quedas preocupado, si te descontrolas con las cosas que suceden, pierdes el control, y así la tranquilidad.
- Dime una cosa que no sé.
- Estoy diciéndola, pero no estás escuchándola. No hay porque ponerse mal, no hay por que. Todas las cosas tienen su motivo.
- Sí, sí. Pero no creo en el destino.
- ¿En qué tipo de destino no crees?
- ¿Perdón?
- ¿Qué consideras como siendo el destino? ¿Un plan dibujado por Dios?
- Creo que sí.
- No creo en ese destino, tampoco. Creo que las cosas son como son, y en este es el destino en que yo creo. Pero puedo hacer las cosas a mi gusto. Y si quiero y no puedo, bueno, no puedo hacer nada. No voy a preocuparme con cosas de este tipo.
- A mí me gustaría tener el control de ciertas cosas.
- Cuando entiendas que no hay control, vas a tenerlo.
- ¿Lo tienes?
- Casi siempre.
El hombre mas alto, de piernas de langosta, sentado a la derecha, retira de sus pantalones un paquete de cigarro, le da uno al hombre a su lado y coge uno para sí. Los dos hombres se quedan en silencio por un rato, mientras pierden el control.
Pedro
(escrito originalmente para aula de espanhol)