O mundo é como um malmequer,
O vemos, mas não pensamos nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
Mas para olharmos pra ele e estarmos de acordo
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Idiossincrasia
| por Térence Veras e Pedro M. Mahfuz |
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13.11.08
CALEIDOSCÓPIO DE OSLO
A primeira música é de Elomar de Figueira Mello. O primeiro som é o de uma viola caipira seguida por uma rabeca. O clima é árido e o sotaque nordestino. A voz, forte e saborosa - cantando os desejos de uma mulher nordestina -, é de uma gaúcha. Dois minutos depois, um fado do Madredeus. Em seguida, um choro-canção do Arthur de Faria - que musicou poesia comovente de Marcelo Sandman.
É com esse pequeno desfile de tremendo bom gosto que Vanessa Longoni começa o seu disco recém saído do forno, A mulher de Oslo. O nome já soa familiar a muita gente, creio. E parece que o cd tem mesmo a intenção de sintetizar o premiado espetáculo da Vanessa: contar histórias através de canções. E logo na quarta canção, um tango de Goran Bregovic, percebo que não há mais nada a fazer, se não sentar, fechar os olhos e ouvir o que mais aquelas várias mulheres contidas numa só têm pra me dizer.
Tudo começou com um pequeno conto do uruguaio Eduardo Galeano, que retrata uma cantora em Oslo contando e cantando seus mais comoventes sentimentos, tirados de papeizinhos que estão em sua saia. Partindo daí, Vanessa montou o show 'A mulher de Oslo' e percorreu, durante dois anos, o Estado inteiro, lotando teatros e arrebatando o Prêmio Açorianos de melhor espetáculo de 2006, até consolidar a idéia com o disco.
Recheado de sofisticação, o trabalho de estréia da Vanessa é uma colcha de retalhos que vai sendo costurada ao pé do ouvido e colorida por composições que nos levam a dar uma volta pelo globo terrestre. Vai-se do sertão brasileiro aos Bálcãs europeus em um instante. Claro que esse mosaico auditivo não se forma apenas com as interpretações certeiras da cantora. A banda base (Arthur de Faria – também produtor musical do disco-, Angelo Primon, Clóvis Boca e Diego Silveira) é ingrediente fundamental na construção desse caleidoscópio de diferentes sotaques. E as participações especiais são a cereja no bolo norueguês: tem o pernambucano Siba, os porteños Martín Sued e Pablo Jivostovichii ( da Orquesta Típica Fernández Fierro), o genial pianista uruguaio Hugo Fattoruso, o Seu Conjunto do Arthur, Marcelo Delacroix, Hique Gomez... Tudo soando regionalmente universal.
O que mais empolga é que não estamos apenas diante de um disco bem acabado e de qualidade incontestável. Mais do que isso. A sensação é de que, a cada audição, as músicas melhoram, tomam formas e adquirem nuances não compreendidas antes, trazendo à tona imagens inconscientemente guardadas em nosso mais profundo universo particular. No fim, A mulher de Oslo deixa algo no ar: não são histórias de mulheres de todos os cantos, que cantam seus mundos. É a história de um mundo encantador, cantado com uma delicadeza tocante e composta por sons que ecoam daqui, dali, de qualquer lugar.
Térence Veras
2:43 PM Comments:
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