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O mundo é como um malmequer, O vemos, mas não pensamos nele Porque pensar é não compreender... O mundo não se fez para pensarmos nele Mas para olharmos pra ele e estarmos de acordo


























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Idiossincrasia
por Térence Veras e Pedro M. Mahfuz
25.5.09

A Verdade da Milanesa

Quem se interessa por música, ou mesmo por línguas, já deve ter percebido que no Tango – tanto no argentino quanto no uruguaio – há incidência de palavras que não são bem do espanhol. Ou que pelo menos não fazem sentido quando empregadas em certas frases dele. Pois a culpa disso é do Lunfardo. Essa gíria portenha nasceu praticamente junto com o tango-canção, lá pela época da primeira guerra mundial. Formou-se em meio a bairros pobres e marginais de Buenos Aires e era difundido pelos milongueiros (figura que podemos comparar aqui com o malandro-de-morro-sambista. A própria origem do nome remete ao preconceito: lunfa quer dizer ladrão).Também era usado como forma de comunicação entre a malandragem hermana para sair ganhando da polícia. Aliás, aqui cabe um adendo. Pode parecer estranho para um espectador desatento, mas o tango, originalmente, era música de pobres. Só ganhou status graças ao Seu Gardel, quando cantou “Mi Noche Triste” no chique Teatro Empire, em 1917. Foi Gardel (francês de nascença, mas argentino de criação) quem tirou o tango das calçadas e o transformou na sólida instituição cultural que ganharia o mundo nos anos seguintes.

Linguisticamente, o Lunfardo é formado por substituição de substantivos, verbos, adjetivos e interjeições castelhanas por termos cujo significado seria modificado, provenientes da germania, do caló, do italiano e seus dialetos, do francês, do português, do inglês, das línguas indígenas, e inclusive de palavras hispânicas às quais se atribuiu um sentido que nada tem a ver com o original. Outra característica dele é inverter a ordem das sílabas, como em em tango, mujer e pedazo ( gotán, jermu e zopeda).

Pelos portos do Rio de Janeiro e Santos entrou e se misturou ao nosso falar coloquial:

afanar (roubar)
bondi, (bonde)
mango (dinheiro)
fulera (feia)
mina (garota)
matina (manhã)
milico (militar)
otário (otário)
engrupir (passar a perna)
cana (polícia).

Notem outras palavras conhecidas nossas no tango “Mano a Mano” - que já é uma expressão familiar (de igual para igual).

Se dio el juego de remanye cuando vós, pobre percanta,
Gambeteabas la pobreza em la casa de pensón.
Hoy sós toda una bacana, la vida te ríe e canta
Los morlacos del otários los tirás a la marchanta
Como juega el gato maula com el mísero ratón.

Percanta é como se chamam as meretrizes. Gambetear é se esquivar. Bacana é vida mansa; O otário é o revés do malandro. Marchanta é golpe (influência italiana).

Mais do Lunfardo pode ser ouvido em tangos clássicos, que, inclusive, têm participação de um paulistano: Alfredo Le Pera, um dos grandes parceiros musicais de Gardel. Dentre suas composições constam “Mi Buenos Aires Querido”, “El Dia En Que Me Quieras”, “Amargura” e “Cuesta Abajo”.

Mas essa incursão brasileira pelo gênero tipicamente argentino é outro post!

Térence Veras

6:12 PM Comments:

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